dezembro 28, 2005


"O meu Deus chama-se Jorge. A sua vida não coincide com nenhuma peripécia épica, a libertação de um povo ou alguma outra estória dúbia: o seu estatuto divino não provém de nenhum milagre. Nascido a 24 de Março de 1941, não há nenhum facto particular de sua vida que seja importante referir. Nunca transformou ou multiplicou comida, e não viu a Luz em lado nenhum. É agora um velhote que mora num bairro lisboeta pouco conhecido. Baixo e anafado, careca e risonho, luta contra o coxear (as aventuras no ultramar acabaram por lhe deixar uma das pernas mais curta que a outra) contra a reforma baixa, e contra a batotice na sueca (convive diáriamente com as restantes divindades no consilio dos deuses lá do bairro, uma mesa de pedra bastante humilde onde deslizam rapidamente todos os naípes). Apesar da falta de condições vive feliz, mesmo estando só. Interessa-se por coisas velhas, fotografias principalmente. Fita-as incessantemente durante horas, admirado com uma arte que nunca dominou, mas sabendo que se a dominasse, seria o melhor. A única cruz que transporta é talvez a sinusite que, arrisco dizer, é o seu maior problema. Nunca ninguém matou em seu nome, e muito menos alguém deu a vida por ele: apenas ele deu a vida por muitos. Acima de tudo, não desiste. Nem ele nem a sinusite."

«O fotógrafo»